A compra do Fusca – Parte II

Nesse momento, eu já era o feliz proprietário do fusquinha verde, antiguinho como eu queria. Mas não sabia exatamente o que isso representava, nem sabia direito com o que estava em mãos.

Quando se compra um carro com 46 anos de vida, é preciso imaginar tudo que uma máquina pode ter sofrido nesse tempo todo. Tudo que desgastou, tudo que foi trocado, todos os donos que teve, e por aí vai. As chances de achar um carro bem próximo daquele que saiu da fábrica são mínimas. E o verdinho aí da foto já tinha sofrido, e eu não sabia.

Logo que comprei, passei por um apuro. No horário de pico, em uma subida estreita e movimentada, o Fusca parou. Não havia espaço para pensar em tranco, havia uma fila de carros logo atrás. Primeiro apuro com o carro, eu estava ali sozinho e não tinha ideia do que fazer.

Umas três pessoas, entre outros motoristas e transeuntes, solicitamente me ajudaram a empurrá-lo até o fim da subida, colocá-lo em uma descida e fazer o Fusca pegar no tranco. Foi quando descobri que muita gente é solidária com os fusquinhas.

Descobri que o dínamo (o alternador da época dos Fuscas) havia parado de gerar energia. Por um período, dei tanto tranco no coitado que carinhosamente ele recebeu o apelido de “tranqueira”.

Depois disso, descobri muito mais coisa. Descobri que partes estruturais dele já haviam sido trocadas, o que provavelmente não era bom. Percebi também que ele já havia sido batido, o que contradizia o vendedor. Descobri que o câmbio já tinha sido trocado, e que por causa disso tinha um monte de gambiarra. Entre outras coisas.

Mas entre essas descobertas o Fusca nos fez muito feliz, no dia a dia, em passeios e viagens.

E eu sigo cuidando dele, boa parte dos problemas que vieram nele eu já resolvi, e tenho outros tantos na lista para resolver quando puder.

A dica que fica: se pretende comprar um carro antigo, e nunca teve um do modelo que procura, peça a opinião de alguém que teve, e que conheça o carro como dono. E que claro, possa te dar uma opinião sincera. Eu não conhecia ninguém que tinha Fusca quando comprei o meu. Mas não me arrependo, acabei conseguindo mais que um carro: achei um companheiro.

*A foto que ilustra o post é do primeiro passeio que fizemos no Fusca depois da compra 🙂

A compra do Fusca – Parte I

Pois bem. Vou tentar contar um pouco a história da compra do Fusca, e da minha história também.

Eu tenho 21 anos, e como disse anteriormente, tenho ele há pouco mais de um ano. Foi meu primeiro carro, comprei ele na mesma semana que recebi pelos Correios a minha CNH. Nunca tivemos carro em casa, então também foi o primeiro que dirigi além dos da auto-escola.

Quando passei no exame de direção, comecei a procurar em anúncios. Já sabia que tinha que ser um Fusca. Olhando na internet, eram poucos os que me atraíam. Até aí, eu já sabia mais ou menos qual ano de Fusca queria (não, Fusca não é tudo igual), e já sabia distinguir alguns defeitos que eram eliminatórios na primeira olhada do anúncio. Além disso, tinha um limite de quanto poderia gastar, o que eliminava outros tantos anúncios. Lembro que havia muitos anúncios de carros baratos e capengas, e os outros eram de carros bons e muito caros.

Tinha visto um Fusca laranja que pelo anúncio me pareceu ótimo, apesar de ser mais novo de ano do que eu queria. Combinei com o vendedor e fomos ver pessoalmente. Aí identifiquei uma série de coisas que não gostei. Ainda assim, eram coisas reversíveis, e se passasse pelo aval do mecânico e o preço fosse bom, ainda compensava. Passou pelo aval do mecânico, mas o preço ficou irredutível, o que não compensava diante do que seria necessário fazer nele.

Já tinha visto, aí, o Fusca verde que viria a ser meu. Mas o preço no anúncio era fora do que eu queria pagar. Depois da desilusão com o Fusca Laranja, e me vendo sem muitas opções, entrei em contato com o vendedor do verdinho. Lembro que ele respondeu na mesma hora, e já quis saber onde eu estava, para me mostrar o carro. Demonstrou uma pressa em vender que me deu esperança. Pressa em vender nunca é boa para o vendedor, e pressa em comprar nunca é boa para o comprador. Éramos dois apressados. Já viu como as pessoas ficam ansiosas pra comprar carro quando tiram carteira?

Levou o carro até o meu trabalho, me mostrou mais ou menos, e me pediu para dirigir. Demos uma volta no quarteirão, e o Fusca me pareceu ótimo (opinião de quem nunca tinha dirigido um Fusca). Lembro que chovia forte, águas de Junho. Ele queria fechar negócio, o motivo da pressa era que estava de mudança com data em breve e não podia levar o carro. Mas ainda não tínhamos falado em valores.

Aquele fusquinha era realmente muito bacana, não tinha visto nenhum defeito grave, era do ano que eu queria, um carro bem original e com muita personalidade.

Naquele mesmo dia, mais tarde, expus pra ele minha situação de pobre, e disse quanto eu podia pagar. E para a felicidade geral da nação, ele aceitou. No outro dia, levamos o carro ao meu mecânico, que fez suas observações mas aprovou. E no outro dia, transferimos.

Comprado o Fusca, a verdade é que eu deveria ter olhado melhor o carro. Deveria ter pedido outras opiniões além da do mecânico. Mas isso fica pra segunda parte desse post.