A simplicidade e a imensidão

Uma hora, a gente conclui que as melhores coisas da vida são as mais simples.

Duas citações tem me perseguido recentemente, daquelas que ficam remoendo na nossa cabeça.

 “Tome cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais”

“Uma vida calma e humilde trará mais felicidade do que a busca do sucesso e o desassossego constante que vem com ela”

A primeira frase é creditada a Sócrates, e a segunda a Einstein.

Outra que não me sai da cabeça, já a bastante tempo, é a máxima “O que você está fazendo enquanto a vida passa?”.

Nada pior que a sensação de estar assistindo a vida passar, o tempo se esvair, com a sensação de não estar fazendo nada. Todo dia a mesma vida, a mesma rotina, os mesmos locais. Todo dia um acúmulo de nada.

“Seiscentos e Sessenta e Seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.”

( Mario Quintana )

“A gente vive dia a dia, e pensa nas contas do fim do mês, na prestação, naquilo que a gente precisava comprar, ou naquilo que a gente nem precisava, mas queria. E daqui a 20 anos, de quais desses você vai se lembrar?”

Essa acima ouvi de um amigo meu, na beira da praia, a trezentos e vinte quilômetros de casa.

Foi assim que dia desses, sem pensar muito nas contas do fim do mês, esse amigo e os outros do trabalho decidimos não passar mais um feriado em casa.

E foi assim que o Fusquinha devorou mais 750 quilômetros de estrada, sem nenhum problema, sem mostrar cansaço.

Vou me lembrar da ida, da ansiedade pra ver o mar. Do carro cheio. Da casa boa em que ficamos, da praia maravilhosa, a areia branca e fina, e a água azul e limpa. Vou me lembrar dos sorrisos de quem foi com a gente, em especial a esposa, que ali conhecia o mar. Vou me lembrar do pôr-do-sol mais bonito que já vi, e da estradinha de terra completamente esburacada que pegamos depois que o sol se pôs, que levava a uma praia escondida e que vimos já de noite. Vou me lembrar da volta, da estrada, da satisfação com o Fusquinha depois da viagem cumprida.

Viajando, assim, a gente se dá conta na nossa pequenez diante da imensidão do mundo.

Gratidão.

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Aiuruoca

Ir até Aiuruoca, no Fusca, estava nos meus planos desde a primeira viagem que pensamos. Como já contei, é a cidade natal da minha mãe. E, além disso, sempre sonhei com o pico do Papagaio. A formação rochosa, que se avistava até mesmo de Cruzília, a cinquenta quilômetros de distância, era pra mim o Everest quando era criança. E algo a tornava ainda mais especial: meu pai já tinha subido até o topo. Histórias infantis fantasiosas, como a de que ali era um vulcão adormecido, a tornavam ainda mais mística. Mais misterioso ainda era entender como se podia subir aquela pedra, que olhando de longe era nada mais que um paredão. Meu pai contava que tinham ido a cavalo, e eu imaginava o cavalo subindo aquela pedra na vertical.

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Depois de um pouco mais crescido, indo e vindo entre Cruzília e Juiz de Fora, passava sempre próximo ao pico, no caminho que o ônibus fazia. Perto dele, sem poder alcançar, o ônibus passava e ia embora.

Comprado o Fusquinha, era a vez de ter liberdade, e mudar o caminho para onde bem entendesse. Era hora de desviar da estrada e seguir rumo ao pico. Esse era o plano na nossa primeira viagem para Cruzília. Mas, como se ainda não fosse a hora, chovia torrencialmente quando eu, a esposa e o Fusca chegávamos à entrada de Aiuruoca, o que impossibilitava a nossa pequena expedição. Na volta, saímos de Cruzília tarde demais para encarar a trilha.

Cinco meses depois, faríamos de novo o mesmo trajeto. Dessa vez nos acompanhavam minha mãe e meu irmão caçula, e minha mãe era das mais animadas com a ida a Aiuruoca, e com a subida ao pico. Lembrava-se de ter subido uma vez, quando era criança, acompanhando meu avô.

Saímos cedo, o suficiente para andar nas ruas de Aiuruoca, visitar parentes distantes e almoçar, antes de rumarmos à serra.

Logo que saímos de Juiz de Fora, a neblina ainda era véu que cobria a estrada
Novamente, na parada em Liberdade

O pico, destino de nossa pequena aventura
Calçadas em pedra, as pequenas ruas de Aiuruoca, onde, majoritários, os Fuscas imperam

Todos de barriga cheia, pegamos a estrada de novo rumo ao pico, dessa vez estrada de chão. Dos vários caminhos que levam ao topo, o que tinha escolhido nos daria o menor tempo de caminhada, à custa de arriscar ir de Fusca em um caminho recomendado apenas para os 4×4. Mas, na cidade nos indicaram outro caminho, que para não contrariar acabei seguindo. Mal sabia que esse roteiro novo tinha quase o dobro de distância a caminhar, o que nos tomou um precioso tempo.

Chegamos à entrada da trilha, no último ponto onde era possível ir de carro. Estacionei, junto com outros carros, e nos arrumamos para a caminhada, sem saber o que nos esperava. Era cerca de 13h quando começamos a subir.

Fomos surpreendidos por uma trilha muito bem marcada, com muitos trechos de caminhadas suaves, e poucos trechos acidentados. Porém a caminhada era longa, subíamos, subíamos, a hora passava e não tínhamos sinal de chegar próximo de qualquer topo. Na trilha, dominavam trechos frescos de mata fechada, onde o som e cheiro da mata são sempre revigorantes. Em alguns pontos, nascentes de água fresca recarregavam nossas garrafas. Nos trechos mais acidentados, a mata abria e era possível olhar para trás e enxergar o horizonte, todo aquele mar de montanhas se estendendo abaixo de nós.

Três horas de caminhada e chegávamos ao Campo de Poejo, um ponto ainda muito anterior a qualquer uma das três corcovas, mas já no topo daquela imensa “cordilheira”. Era o ponto mais longe que nosso tempo nos permitia, ainda levaria cerca de duas horas para chegar ao pico, e se fizéssemos qualquer avanço nesse sentido, nossa volta seria sob a luz da lua.

Estava bom, dessa vez. A vista era maravilhosa, e recompensadora. Tão bonita que fazia não nos sentirmos incompletos por não termos chegado ao pico. Minha mãe era só sorrisos, meu irmão admiração, e a esposa mesmo cansada conseguia contemplar aquela vastidão de montanhas.

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Vista panorâmica do Campo de Poejo

Descemos, e quando o sol se pôs já estávamos na reta final da trilha, chegando ao carro. Mais um pouco e chegávamos a Cruzília, satisfeitos com nossa expedição.

O topo permanece inconquistado, como se pedisse que retornássemos a ele. Voltaremos, em uma próxima aventura.

Caminhões

No post passado, comentei sobre as caronas de caminhão entre Cruzília e São Thomé. Guardo com carinho essas lembranças. Quase sempre que íamos a São Thomé, era de caminhão. Meu pai deixava a carona conversada no dia anterior, e no dia de viajar a gente saía de casa ainda de madrugada e ia para o lugar marcado. A carona era certa, e o motorista sempre tinha boas histórias pra contar, quando viajávamos na cabine.

Na ida quase sempre era na cabine. Na volta, normalmente era na carroceria. O fluxo de caminhões entre Cruzília e São Thomé era muito grande, com toda a carga de pedra que sai de São Thomé. E nunca viajávamos sozinhos, sempre iam conosco os trabalhadores das pedreiras, que moravam em Cruzília. Principalmente na volta, quando a carroceria voltava cheia, às vezes com mais de trinta pessoas sentadas sobre as pedras que iam na carroceira de grade baixa.

Hoje, a maioria dos caminhões de pedra pegam um desvio na estrada de terra que sai direto em Baependi, onde tem mais depósitos, ou saem de São Thomé direto para Três Corações, por estrada de asfalto. E claro, não pode viajar mais ninguém na carroceria, a polícia não deixa. Foi uma época boa que não volta mais.

Viajávamos bastante também em caminhões leiteiros, sentados sobre as latas. Hoje também não tem mais isso, nem caminhão e nem lata viajando. O leite nas fazendas vai direto para resfriadores, e o caminhão que vai buscar é tanque, raramente dá carona. O bom mesmo era viajar na carroceria.

Tinha também meu tio, que mora em Carrancas, e sustentou a família a vida inteira com o velho Chevrolet D60. Era caminhoneiro, e era seu próprio mecânico. Na casa dele na roça tem quase um desmanche com peças de caminhões, onde tudo se aproveita. Meu vô dizia como referência para achar a casa dele: “quando ver uma árvore dando peça de caminhão, é lá mesmo”. E a anedota é verdadeira, na entrada do sítio tinha uma árvore que meu tio sempre usou para tirar motor de caminhão, com correntes e roldanas presas num galho robusto.

Vale comentar que na roça o nome dos modelos de caminhões seguia uma lógica própria. O MB1313 ou qualquer outro derivado eram chamados simplesmente de “Mercedinho”. Os Ford F14000 antigos eram “fordinho”, e o mais novos eram os “boca de sapo”. Tinha também os Mercedes cara-chata, e Chevrolet só tinha um, que podia ser da cara quadrada ou não. Todos toco, raramente se via algum trucado. Os Scania jacaré, que gosto demais, nunca se via por aquelas bandas, só no asfalto.

Gosto muito de caminhões, principalmente os mais antigos. Hoje em dia, sempre que pego a estrada fico reparando nos caminhões, nas paragens. Brinco com os motoristas quando posso, a bordo do Fusca estrada afora. Tentativa de tirar da rotina quem leva uma vida quase sempre solitária na boleia, engolindo asfalto dia e noite. Respeito demais quem literalmente carrega o Brasil nas costas, pelas estradas desse nosso país.

São Thomé das Letras

Não sei dizer quantas vezes já fui a São Thomé. Não por causa de nenhum misticismo, muito menos por ser bicho grilo ou qualquer outra coisa. Mas sim pelo fato de ter nascido a pouco menos de quarenta quilômetros de lá. Lá tenho alguns primos, e só isso já me garantiu algumas visitas ao lugar. E quando meu pai começou a dar aula em São Thomé, a cidade virou destino frequente.

Sempre gostei de lá. A pequena cidade que não deve ter mais que trinta ruas sempre me pareceu acolhedora. E mesmo não sendo adepto de nenhum tipo de crença sobrenatural, sempre gostei do clima da cidade. Das ruas apertadas calçadas com pedra, do cheiro de incenso, dos artesanatos, dos mirantes.

A esposa, que também gosta do clima que envolve tudo isso, mesmo sendo tão descrente quanto eu, ansiava por conhecer o lugar. Nós já tínhamos ido à minha cidade outras vezes, mas sem carro, e acabou não dando pra ir até a cidade vizinha. Ficou pro Fusca, nosso verdinho, a missão de nos levar até São Thomé, na mesma viagem do último relato.

Saímos cedo, rumo a aquela estrada de chão que já tinha cruzado tantas vezes, andando nos outros fuscas que já contei aqui, ou a bordo de caminhões, seja na boleia ou na carroceria. Viajar na carroceria era sempre uma aventura à parte, e ainda contarei mais sobre isso aqui.

Nessa vez fomos eu, a esposa, e minha irmã caçula, que mora em Cruzília.

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Passou rápido cada quilômetro do caminho, do qual conhecia cada palmo. Fiquei procurando na beira da estrada o acesso para a casa na roça onde moramos, na época em que meu pai fazia tijolos durante o dia e ia de bicicleta pra cidade dar aula de noite.

Passou a divisa entre Cruzília e São Thomé, onde outra estrada de terra vai para Carrancas, e onde desde os tempos antigos funciona uma venda. E seguimos rumo à São Thomé

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Pra quem nunca foi à São Thomé, explico rapidamente a geografia: a cidade fica no topo de uma serra, a exatos 1.440 metros de altitude. Da estrada no pé dessa serra até a cidade, sobe-se verticalmente quase 400 metros, em menos de uma légua de distância.

Ah, e é principalmente de lá que vem as pedras São Thomé, que já rodaram o mundo e estão no entorno de 95,33% das piscinas do Brasil. Devido às pedreiras, vista de cima, São Thomé é só um pontinho branco no mapa. Já viu pedra São Thomé raiada? Não né? Nem no Google vai achar. Mas a memória não me falha, e pode ver aqui, em uma casa cruziliense. Esses desenhos são naturais, feitos pela infiltração na pedra.

Bem, voltando ao nosso passeio: já quase chegando a São Thomé, antes de subir a serra, paramos na cachoeira do Flávio. A água fria que vem da montanha ainda não tinha acordado, e não nos animava a entrar. Engraçado foi o “estacionamento” da cachoeira, de piso acidentado o suficiente pra deixar o fusca sobre três rodas algumas vezes.

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Seguimos caminho, era hora de subir a serra. A estrada de chão que sobe ziguezagueando entre enormes árvores dá a impressão de estarmos em mata fechada. O freio dos caminhões que vinham descendo a serra rangiam de se ouvir a quilômetros, enquanto a carroceria não articulada torcia para fazer as curvas apertadas e íngremes. Arbustos na beira da estrada eram da mesma cor da poeira que cobria o chão. E carros de turistas desacostumados com a condução na terra subiam lerdos, fazendo fila.

O Fusca não, subia a todo vapor. Provavelmente era a primeira vez dele ali, mas não a minha. A cada espaço que tínhamos, ultrapassávamos um novo carro, deixando uma nuvem de poeira atrás de nós. Mais algumas curvas e chegávamos ao topo, vendo a entrada daquela cidade de pedra, e lá no fundo o horizonte a perder de vista, para onde dava o outro lado da serra.

De carro é ruim de andar na cidade, as ruas são apertadas e estão sempre cheias. O calçamento de pedra piora tudo, até mesmo pro Fusca. E além do mais, não tem necessidade nenhuma de andar de carro em uma cidade que se atravessa a pé em quinze ou vinte minutos. Estacionei na rua do lado da casa de um primo da minha mãe, que a tempos não via. Lá tomamos café, proseamos e fomos agraciados com um almoço maravilhoso. E nem avisamos antes que iríamos. Agradecido o almoço, fomos passear na cidade. Deu tempo de ir nas lojas de artesanatos, comprar casinhas de pedra e outras bugigangas. E um adesivo, com a bandeira de Minas, que desde então habita uma das janelas do Fusca. Não haveria oportunidade melhor para comprar esse adesivo.

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Depois fomos nos mirantes: na gruta logo ao lado da igreja central, e depois na pirâmide, onde sempre tem dezenas de bichos-grilo, fomos na pedra da bruxa, e no mirante do cruzeiro.

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Descemos de novo e chegamos no carro, pegando o rumo de casa. Já estava quase na hora do sol se por, era hora de ir. Descemos a serra, e num local bonito paramos para tirar umas fotos na estrada. Pouco tempo depois era noite e estávamos chegando em Cruzília.

 

*Ah, o Fusca andando na terra fica lá pela metade do vídeo. Os outros momentos são de outras partes da viagem.

Sul de Minas

Como disse em algum lugar por aqui, nas viagens que já fizemos, o Sul de Minas foi o destino mais frequente. Não só porque é perto e fácil de ir, nem só porque lá temos pouso garantido, e nem só pelos belos lugares e boas estradas. Mas principalmente, porque lá é minha terra.

E a primeira viagem de verdade, a bordo do nosso querido Fusca, foi pra lá.

Caminho que fiz pela primeira vez de caminhão, com a nossa casa nas costas rumo a um novo lar. Caminho que diversas vezes já havia feito de ônibus, quase todas elas sozinho e em boa parte delas ainda criança. Viajava à janela, sempre de fones no ouvido. Matava o tempo decorando cada parte da estrada, assistindo a vista durante o dia e vendo estrelas durante a noite. Sonhando em conquistar aquela estrada de carro. E conquistamos!

Antes da viagem, todas as revisões feitas, com a cautela de quem nunca tinha dirigido por mais de uma hora na estrada. Motor, elétrica, suspensão e freios, tudo em ordem em uma máquina de 47 anos. Levando no carro só a bagagem, a caixa de ferramentas, alguns conhecimentos e uma garrafa d’água.

Saímos antes do sol nascer, fomos ao posto encher o tanque e pé na estrada. O dia amanheceu frio, e quando o sol nasceu, já estávamos longe da cidade.

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A cada quilômetro andado, a cada curva, lembrava das outras vezes que já havia passado por ali, enquanto desfrutava de uma viagem tranquila e sem problemas, andando no ritmo que o motor mandava. Não, não era eu que mandava nele, era a estrada (embora tenhamos concordado, em uma longa descida, que ali passaríamos pela primeira vez a barreira dos 100 km/h). Mas normalmente, a estrada mandava irmos a 70 ou 80 km/h, em uma estrada cheia de curvas, subidas e descidas. Nas subidas, o pequeno 1300 respeitava o aclive, deixando cair pela metade a velocidade de cruzeiro.

Com duas horas e meia na estrada, chegávamos à única parada que fizemos antes de chegar ao nosso destino. Descida pra esticar as pernas, tomar um café quente e comer uma fatia de queijo minas, enquanto observava os caminhões, uma das coisas que mais gosto nas paradas na estrada.

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Mais pra frente, ainda conto a história do bagageiro no teto

Pouco mais de uma hora e meia depois, chegávamos ao nosso destino. Estávamos ali, nós e nosso Fusca, a duzentos quilômetros de casa. Ele, tão intrépido quanto quando saímos, e nós, um pouco menos. Depois disso ainda tivemos outros destinos antes de voltar pra casa, mas que ficarão para outras histórias.

* No vídeo, há também outros momentos da viagem, que como escrito acima ficarão para outros posts.

* Ah, uma coisa que lembrei vendo o vídeo: depois que saímos da parada em que tomamos café, andamos quase meia hora debaixo de chuva forte. A satisfação que ficou foi de ter dado vida novamente ao limpador de para-brisa, poucas semanas antes da viagem. Pequenas alegrias para o dono desse pequeno e antigo automóvel.

Fusca

Quando quis comprar meu primeiro carro, sabia que tinha que ser um Fusca.

Dos poucos contatos que tive com carro na infância, a maioria foi com Fuscas. Tinha o de um primo nosso, que levava a gente pra casa dele na roça. Tinha o de um casal de colegas do meu pai, que davam carona pra ele até o trabalho na cidade vizinha, e volta e meia eu ia junto. Teve até um que me levou pro hospital quando tive um dos dedos da mão prensado em uma porta. E eu lembro dos detalhes de cada um deles, mesmo sendo bem criança.

Lembro do valente motor barulhento (e que barulho agradável!) que aquecia o banco de trás. Lembro dos detalhes dos painéis, simples e bonitos. Daquele volante de aro estreito e grande, que me lembrava os dos caminhões. Lembro dos grafismos, das cores.

As caronas eram quase sempre em estradas de terra ou ruas esburacadas. E pro Fusca, não fazia diferença nenhuma. Se tinha um carro pela frente na estrada de chão, ele ultrapassava. E quando passava, quase sempre o motorista do outro carro nos cumprimentava, com a buzina e com sorrisos. Aquilo tudo me encantava.

De noite, um dos sonhos mais recorrentes que tinha era ao volante. Adivinha onde?

Não entendia nada de mecânica, e não sabia que no Fusca tudo é diferente, da forma mais simples e prática possível. Nada de dar água pro motor beber, nada de problemas com sensores complicados. A luz da injeção nunca vai acender em um Fusca, o radiador nunca vai vazar água. Se der pane na estrada, e é raro isso acontecer em um Fusca com a manutenção em dia, é fácil fazer ele voltar a andar, com meia dúzia de ferramentas e algumas peças de reserva. O que mais você espera de um carro feito para a guerra?

Suas linhas são um caso à parte. Ou você ama, ou você odeia. Eu sou um dos que ama. Mas nenhum outro carro vendeu tanto, sem passar por nenhuma grande reestilização.

Às vezes, tenho a impressão de que não é apenas um carro. É uma máquina viva, e a minha está com 47 anos de idade. Um senhor quase da idade do meu pai, e que sei respeitar como se fosse. Com ele eu converso, interajo. Às vezes, quando não tem outro carro por perto e a estrada é nossa, parece que somos um só. Meus pés se transformam em rodas e os braços em volante, sinto nos pés cada imperfeição do caminho e no rosto a brisa. E as músicas de outras décadas que tocam no som embalam a viagem.

Uma das minhas maiores satisfações é ir até a garagem, e ver aquela luzinha opaca e amarela do interior acendendo ao abrir a porta, como quem me dá boas vindas. É pisar um pouco mais forte e sentir o motor, entre as curvas do caminho diário pra faculdade. É encher o tanque e cair na estrada com a esposa do lado, andando sem pressa nenhuma.

No Fusca, a melhor parte da viagem é a própria estrada.

A compra do Fusca – Parte II

Nesse momento, eu já era o feliz proprietário do fusquinha verde, antiguinho como eu queria. Mas não sabia exatamente o que isso representava, nem sabia direito com o que estava em mãos.

Quando se compra um carro com 46 anos de vida, é preciso imaginar tudo que uma máquina pode ter sofrido nesse tempo todo. Tudo que desgastou, tudo que foi trocado, todos os donos que teve, e por aí vai. As chances de achar um carro bem próximo daquele que saiu da fábrica são mínimas. E o verdinho aí da foto já tinha sofrido, e eu não sabia.

Logo que comprei, passei por um apuro. No horário de pico, em uma subida estreita e movimentada, o Fusca parou. Não havia espaço para pensar em tranco, havia uma fila de carros logo atrás. Primeiro apuro com o carro, eu estava ali sozinho e não tinha ideia do que fazer.

Umas três pessoas, entre outros motoristas e transeuntes, solicitamente me ajudaram a empurrá-lo até o fim da subida, colocá-lo em uma descida e fazer o Fusca pegar no tranco. Foi quando descobri que muita gente é solidária com os fusquinhas.

Descobri que o dínamo (o alternador da época dos Fuscas) havia parado de gerar energia. Por um período, dei tanto tranco no coitado que carinhosamente ele recebeu o apelido de “tranqueira”.

Depois disso, descobri muito mais coisa. Descobri que partes estruturais dele já haviam sido trocadas, o que provavelmente não era bom. Percebi também que ele já havia sido batido, o que contradizia o vendedor. Descobri que o câmbio já tinha sido trocado, e que por causa disso tinha um monte de gambiarra. Entre outras coisas.

Mas entre essas descobertas o Fusca nos fez muito feliz, no dia a dia, em passeios e viagens.

E eu sigo cuidando dele, boa parte dos problemas que vieram nele eu já resolvi, e tenho outros tantos na lista para resolver quando puder.

A dica que fica: se pretende comprar um carro antigo, e nunca teve um do modelo que procura, peça a opinião de alguém que teve, e que conheça o carro como dono. E que claro, possa te dar uma opinião sincera. Eu não conhecia ninguém que tinha Fusca quando comprei o meu. Mas não me arrependo, acabei conseguindo mais que um carro: achei um companheiro.

*A foto que ilustra o post é do primeiro passeio que fizemos no Fusca depois da compra 🙂